Gosto de dividir minha vida em "vidas nesta vida", e senti necessidade de pautar o início da minha sexta vida, que vem em transição há pelo menos dois anos.
E especialmente o ano de 2024, foi ano em que deixei morrer muitas versões que me prendiam ao sofrimento, ele não foi suave, não foi leve, pensando bem iniciei minhas batalhas na metade de 2023, pessoais e profissionais.
Em maio de 23, sim em maio de 23, lembro de um dia que chorei, sentida e dolorosamente, não escondi minha dor e pedi ajuda, pedi opinião, reorganizei como seguir e segui. Também em junho ou julho de 23, houve uma ruptura muito grande que foi processada a pouco. Parte de mim já sabia ali, das ilusões que caiam por terra, das incompatibilidades do que eu achava que eu era e do que eu realmente valorizava e do preço de sustentar cada parte do meu ser.
As coisas de valor, não se precificam, que lindo de falar né!
Você já pensou como é sustentar isso numa mesa de reuniões lotada de opiniões diferentes da sua? Já pensou no impacto e no custo dessa sustentação nas suas diversas camadas? E no quanto você se questiona até se garantir que seu valor não é apenas uma crença limitante sua, ou uma resistência a adaptar-se ao novo?
Então, fiz o mais doloroso e difícil, fui revisitando partes de mim uma a uma, e refazendo, sustentando somente o que era inegociável, e descobri que tenho muitos inegociáveis. Isso foi me desgastando, fui pagando cada moeda dessa sustentação, e fui perdendo.
Perdi ilusões, perdi pessoas, aliás corrigindo, não perdi pessoas, perdi somente ilusões que eu tinha em relação a pessoas. Como isso dói, né!
É tão fácil medir! Basta abrir o WhatsApp, 2022 "oi amiga, vamos ..." 2023 "oi, te mandei por email ..." 2024 ".....", você deixa de existir rapidamente quando perde a utilidade, sim para alguns você só teve utilidade e não é culpa deles, quem mudou foi você, não tivesse mudado ainda estaria sendo útil eles são os mesmos, exatamente como podem ser, também colados aos seus sofrimentos e mecanismos de fuga. Na atualidade o instagram também é boa medida, quem te marca, quem posta foto contigo. Ah! Sobraram tão poucos, esse peso vai ficando para trás, mas ainda dói, penso que a dor é de não ter visto antes, de ter sido inteira, onde outros eram 10% comigo.
Sobraram poucos! Corrigindo, acho que não sobraram poucos não, sobrou muita qualidade, e muitas pessoas que seguiram antenciosos, pacientes, acolhendo minha nova versão, e me ajudando na travessia. Alguns me carregaram nos momentos crussiais. E fui me refletindo nesses e me aproximando de outros com os mesmos valores, os mesmo inegociáveis.
Esse movimento, que poderia facilmente descrever como tsunami, do tanto que senti, do tanto que enxerguei, na primeira fase senti pena de mim, que sofrimento dolorido! Não consigo falar dele, mas as cenas estão vividas, quando revisitei com outro olhar cada momento tentando, sustentando meu eu, chorei.
O segundo momento foi: então quem sou eu? O que eu realmente não negocio, e o que estou disposta perder? Noves fora definidos, com dor, com muita dor e muito pensar em cada consequência, fui sustentando.
Passo três, autoestima, não é possível se mover sem autoestima em dia, então olhei para mim, o que me incomoda, emagrecer? Sim, quero, preciso, nutricionista, dieta, etc e tal, fui, terapia sempre, terapias alternativas? Bora! É claro sustentando e pagando em moedas do meu ser.
A gente não vê assim, um cronograma pronto, um passo a passo definido, não escrevi esse planejamento, tudo foi empírico, sentido, sustentado e mortificado, quando estava a um passo da morte, talvez fosse assassinada em breve, decidi morrer por mim e posso dizer que esse foi o quarto momento, o mais doloroso. Entendi que precisava movimento, e a autoestima não estava concluída, mas existente, ela cabia deverás num saquinho de sacolé, com ela iniciei o movimento.
Com o primeiro movimento, o sacolé de autoestima e dor, muita dor, é uma dor ardida, quando se vê o que estava enublado, não conheço palavras quem imprimam o que ficou grudado no meu dna dessa vida, não foi a primeira vez desse sentimento, já descrevi minhas muitas vidas, por aqui.
Num chamado quinto passo ativei a confiança, a coragem, minha rede, minha real rede de apoio, consciente do que perdia, com uma confiança inabalável de que estava certa, tudo tinha se descortinado eu não era a mesma, nada mais me cabia, uma velha roupa se quer.
No momento a seguir, descansei, reservei tempo para mim, eu já tinha plantado, regado, então era paciência e reconexão. Foi um tempo de limpeza, lembro muito do sol de inverno, o frio e aquecimento das olheiras de sol, tomei muito sol, sai caminhar sozinha. Um dia parei num local aleatório para comer, e depois pedi um sorvete, eu postei uma foto e mandei para minha irmã "eu nunca tinha comido um igual" era apenas uma casquinha de máquina. E com essa lembrança eu choro agora escrevendo. Essa pequena fase, as escolhas que fiz nela, sem me negar sentir, senti cada agulha cravada no meu corpo, mas veja: voltei a sentir o gosto do sorvete. Fui contando dia a dia #dia01, #dia279, #diaxxx, não lembro o dia que parei, apenas senti que estava de volta a rota.
A sétima fase foi o retorno, o recomeço, lembro do dia, do frio, do novo local físico, outras pessoas, muitas outras pessoas. A sensação de se reconhecer novamente, já era outra de mim, ainda com muita dor ardida.
Sair da pele dói, não tem a ver com os atores envolvidos, tem a ver consigo próprio, não há vilões, há o meu "Bhagavad gita". Essa é a fase de haver-se consigo mesmo, sustentar-se, separar o seu do que é do outro.
Por algum motivo, hoje senti que adentrei na sexta vida, posso dar por concluída essa "troca de pele", ponte queimada, sem possibilidade de voltar para antiga eu.
Como eu estou? Seguindo com coragem, muita, com meus inegociáveis intactos, mais segura, mais leve e consciente de tudo que posso, que quero e que vale para mim.
O que fica mais uma vez muito claro é o quão necessário e gratificante é recomeçar, ressignificar essa existência ainda nela, não se iludam, pois falo de gratificante, não é suave, nem todos tem coragem de rever rotas e puxar para si a responsabilidade de ser melhor. Melhor que ontem, viver mais leve que ontem, mesmo que para isso seja preciso rasgar-se inteira e fazer crescer nova pele.
Sem romantismo, viver é construir-se corajosamente, rever todo dia a rota e mover-se para aquilo que lhe é valor.



























