Janelas, pulsantes janelas

Gosto de falar das janelas. Elas subentendem nossas visões de mundo. Por minha janela, posso ver outras 300, 500...não saberia dizer, estou cercada de prédios altos, de grandes e pequenas janelas. O concreto que as sustenta é cinza e no geral envelhecido. Mas delas emerge vida. Pulsante vida. Ás vezes, pego-me a observar e imaginar, quem são essas pessoas que as abrem e as fecham diariamente, o que elas fazem enquanto estou fora, o que estão fazendo agora, estarão ouvindo mais fortes os ruídos dos motores, de uma serra elétrica, ou o som que se sobressai para elas, é esse adorável canto dos pássaros da rua. Não sei. Estamos todos muito juntos, porém muito  distantes, compartilhamos a mesma vista, o mesmo clima, preocupações semelhantes. Mas não nos conhecemos pelos nomes, porém cada um deve ter sua forma de individualizar os outros, tenho o vizinho dos dois splits, a vizinha do vaso de flores, a da tolha de mesa de bolinhas, a do pano de prato encardido, a que nunca recolhe as roupas de noite, a que tem um pássaro na gaiola. Conhecemo-nos assim, fazemos parte um da vida do outro silenciosamente. Como será que sou conhecida? Pendurei um filtro dos sonhos na janela, poderia ser conhecida com a do filtro, ou como a que faz as refeições em frente a janela, ou quem sabe  a que toma seu vinho solitário. Não sei. Mas gosto disso, gosto da minha individualidade, de ser como sou sem maiores preocupações com meu rótulo, se me aprovo,  é o que basta. Aqui é tão calmo, tão aconchegante, me sinto protegida. Feliz.

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