quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Se somos o que comemos... então

Há um velho dito "Somos o que comemos", tenho refletido nesses últimos tempos sobre o que como e a forma que esses alimentos chegam até mim. Confesso que tenho me sentido um tanto culpada.
Nasci numa pequena propriedade rural, em 1978, onde meus pais vivem até hoje. Naqueles tempos as coisas eram bem diferentes, na minha rotina alimentar. Eu sempre comi de tudo e sem culpa nenhuma, talvez esteja explicado porque fui uma adolescente um pouquinho rechonchuda. A maioria, grande maioria mesmo de nossos alimentos eram produzidos por nós. Quando as vacas pariam,os filhotes eram cuidados, na hora de tirar o leite, um dos tetos e o apojo ficava para o terneiro, o leite era tirado somente uma vez ao dia, o resto do tempo mãe e filhote ficavam juntos no pasto, é tão bonito ver o bezerro correndo e dando pinotes. As galinhas criadas soltas, recebiam milho duas vezes ao dia, e podiam comer todo espécie de frutas e insetos pelo pátio e pelo campo, as chocas criavam suas ninhadas, agasalhavam os pintinhos em suas asas por meses, muito emocionante vê-la chamando os filhos quando encontra alguma comida. As ninhadas de porcos, sempre de oito a doze, como são fofos, eles ficavam alguns dias separados dos adultos por segurança, a porca mãe ganhava além do milho, uma "lavagem" com sobras de gordura da comida, abóbora, soja e o que mais tivesse e deixasse a comida bem caldeada, para baixar o leite para os  leitões. As galinhas colocavam seus ovos onde queriam, algumas escolhiam os ninhos preparados para este fim no galinheiro, outras preferiam fazer seu ninho nas palhas secas  debaixo do arvoredo, e já houve numa ocasião uma atrevida que entrou pela porta da sala e colocou um ovo encima do sofá. Tomávamos leite, fazíamos queijo, ovos fritos, merengues e toda espécie de derivados. Dos porcos fazíamos salame, copa e a banha. Sempre comemos carne dos nossos animais, não nego que o momento de suas mortes sempre me foi dolorido, mas minha família o procurava fazer o mais breve e sem sofrimento, quanto fosse possível. Para a execução era repeitado regras simples de vida, os escolhidos nunca eram tão jovens, e jamais em idade tenra, as galinhas, vacas e porcas cumpriam sua função no planeta, viver, procriar e morrer. Eu via esse processo quase como natural, e me alimentava desse ciclo. Cresci vendo os animais como parte de nós, cada um em sua função no planeta, e nós humanos como carnívoros que infelizmente somos, ao topo e gerenciando essa cadeia. Hoje vejo os alimentos de origem animal de forma diferente, os como com certa culpa. Sei que aquele simples ovo frito, custou a vida despedaçada de um ser vivo, que queria ter corrido e catado bichinhos e comido grama. Quando abro a caixa de leite, vejo os bezerros jogados no lixo, para que o leite seja todo comercializado, vejo as vacas com o úbere atrofiado, o que vimos na tv ser chamado de genética melhorada. No pedacinho do bacon na pizza lembro de como são os criatórios de suínos, a porca deitada num minúsculo espaço sem poder se mover, sem sol, nem sequer ver suas crias. Estou sem vontade de comer  carne. Não estamos evoluindo para o caminho correto, não pode ser certo essa a cultura de exploração animal, não dessa forma. É preciso começarmos a pensar em criações como as do meu pai, onde os animais também possam cumprir sua função natural. Se continuarmos nessa linha de desrespeito com a vida, buscando somente a lucratividade da produção, onde iremos parar, e quantas atrocidades ainda podemos cometer em nome da lucratividade na alimentação dessa massa carnívora gigante.

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Na propriedade de minha família a criação ainda é como descrevi, desde meus tempos de criança.




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