sábado, 19 de maio de 2018

Artigo: A lei 8.666/93 e o regime diferenciado de contratações, diferenças e semelhanças nas legislações

A lei 8.666/93 e o regime diferenciado de contratações, diferenças e semelhanças nas legislações

Elisandra Lidiane MINOZZO, Celmar Corrêa de OLIVEIRA

Resumo


O Regime Diferenciado de Contratações (RDC) foi criado para atender as demandas específicas das obras da Copa das Confederações e a Copa do Mundo Fifa de 2013 e 2014, às Olimpíadas e Paraolimpíadas de 2016 e infraestrutura aeroportuária. No entanto, sua existência no ordenamento jurídico foi perdendo o caráter transitório através de alterações legislativas que ampliam a aplicabilidade do RDC. Este estudo objetiva verificar algumas das diferenças entre o RDC e a Lei 8.666/93, buscando responder à questão de pesquisa: o regime diferenciado de contratações torna de fato, mais eficiente, eficaz e efetivo o processo de contração na esfera pública? Para responder à questão proposta no trabalho, utilizou-se uma abordagem qualitativa, valendo-se de uma revisão bibliográfica. Comparou-se as leis em três pontos escolhidos: inversão de fases; contratação integrada e questão ambiental, buscando pautá-los pelos indicadores de eficiência, eficácia e efetividade. A conclusão aponta a Lei 8.666/93 é mais eficiente e mais efetiva quanto a exigência de elaboração de projeto básico pela Administração Pública, igualando-se em eficácia na ordem de fases da habilitação. O RDC é mais eficiente quanto a ordem das fases de habilitação e mais efetivo quanto a questão ambiental, igualando-se em eficácia.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

RESENHA CRÍTICA: Psicanálise com Crianças - COSTA, Teresinha. Psicanálise com crianças. 3ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. 88 p.

RESENHA CRÍTICA
Psicanálise com Crianças

COSTA, Teresinha. Psicanálise com crianças. 3ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. 88 p.

1 – Credenciais da autora:

Teresinha Costa é psicanalista, mestre em pesquisa e clínica em psicanálise pelo Programa de Pós-graduação em Psicanálise do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro. É coordenadora do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) das Faculdades Integradas Maria Thereza (Famath), em Niterói, onde também é professora, supervisora do estágio clínico e orientadora de pesquisa sobre a clínica psicanalítica com crianças dentro do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic). É autora do livro Édipo (Rio de Janeiro, Zahar, 2010) e escreveu, dentre outros, os artigos: “Entre supervisão e controle: a psicanálise no SPA da universidade”, com Marco Antonio Coutinho Jorge, in Sonia Altoé e Márcia Mello de Lima (orgs.), Psicanálise, clínica e instituição (Rio de Janeiro, Rios Ambiciosos, 2005); “A pirâmide das heresias: a ética na psicanálise com crianças”, in Marco Antonio Coutinho Jorge (org.), Lacan e a formação do psicanalista (Rio de Janeiro, ContraCapa, 2006); “A criança e a ética psicanalítica”, Revista Marraio, n.11 (Rio de Janeiro, Rios Ambiciosos/FCCL, 2006); e “O desejo do analista e a clínica psicanalítica com crianças”, Psicanálise & Barroco em Revista, n.14 (www.psicanaliseebarroco.pro.br), dez 2009.

2 – Introdução – resumo principais tópicos:

            O livro inicia formulando o conceito de infância, visto ser necessário, contextualizar a criança histórica e culturalmente, antes de falar sobre a psicanálise com crianças. A primeira definição de criança vem da idade média, onde era vista como um pequeno adulto; mais tarde nas sociedades agrárias, tão  logo  adquirisse  alguma independência, passava a participar da vida dos adultos e de seus trabalhos, jogos e festas; os pais não se apegavam muito a seus filhos, pois poucos sobreviviam. Na renascença a criança passa a ser vista como o centro do grupo familiar, e a infância considerada um período de preparação para o futuro. No século XVII, em Um amor conquistado: o mito do amor materno, Elisabeth Badinter assinala que, ainda considerava-se a criança como um estorvo para os pais. Essa posição teve origem no pensamento de santo Agostinho, para o qual a infância não tem nenhum valor e é o indício da corrupção dos adultos. A infância é uma época em que predomina a maldade da criança, antes de qualquer adestramento educativo e moral. Nesse sentido, cabe aos pais adotarem uma atitude rigorosa com seus filhos. Esse pensamento reinou durante muito tempo na história da pedagogia e foi responsável por uma atmosfera de frieza na família, e os pais, instruídos pelos pedagogos, passaram a adotar uma educação rígida em relação aos filhos para livrá-los de suas malignidades naturais.
            Com a ascensão do capitalismo, a criança passa a ser vista como um investimento lucrativo para o estado, a longo prazo,    e sua educação passa a seguir um modelo pedagógico com objetivo de assegurar o futuro da civilização. Segundo a autora, dentro de uma perspectiva histórica, partimos de um momento no qual predominou um total desconhecimento da criança e que, no decorrer dos séculos, o discurso ideológico sobre a infância ressaltou a representação da criança marcada por uma natureza a ser corrigida pelo adulto, um ser assexuado, sem desejo próprio, imaturo. Essa idéia imperou por muito tempo e foi somente a partir das teorizações de Freud que tal concepção se modificou.
            No segundo capítulo a autora fala dos primórdios da psicanálise com crianças, trazendo as descobertas iniciais de Freud a partir da escuta de suas pacientes histéricas, inicialmente ele desenvolve a teoria da sedução, encontrando a etiologia das neuroses dos adultos em experiências sexuais traumáticas ocorridas durante a infância. Porém, seu fracassos clínicos levaram-no a abandonar essa teoria e reconhecer que cenas de sedução não teriam necessariamente ocorrido, Freud chega à conclusão de que os sintomas histéricos decorriam das fantasias impregnadas de desejo. Assim, a realidade psíquica era a determinante, e não a realidade factual, tendo como pano de fundo a sexualidade infantil.
            Modificando-se aí, o conceito de infância, que deixa de ser vista a partir de um registro genético e cronológico para ser abordada pela lógica do inconsciente. Com os cuidados e o desejo maternos, a criança será introduzida no campo da sexualidade, pois é pelo contato com a mãe, ou um substituto, que o corpo do bebê será erogenizado. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, quando Freud pôs em xeque as concepções moralizantes sobre a atividade sexual das crianças. Apresenta-se uma nova criança, dotada de uma sexualidade perverso-polimorfa. 
            A psicanálise com crianças é herdeira do Iluminismo, onde coube inicialmente as mulheres analisar as crianças.  Entretanto, a autora traz o caso do pequeno Hans, publicado por Freud em 1909, como o início da análise com crianças, ainda faltava um elemento fundamental na clínica com crianças que era a descoberta do brinquedo como um recurso que o analista utiliza para ter acesso ao inconsciente infantil. Descoberta essa, que  foi propiciada pelo próprio Freud, em 1908, no artigo “O poeta e o fantasiar”, introduziu a idéia de que a brincadeira da criança corresponde à fantasia no adulto.
            Entre 1920 e 1940, após se constatar que o brincar da criança supre a regra principal da psicanálise que é da associação livre,  ocorreu o verdadeiro nascimento e desenvolvimento da psicanálise com crianças, a partir das pesquisas das primeiras analistas: Hermine von Hug-Hellmuth, Anna Freud e Melanie Klein.
            Nos capítulos terceiro, quarto e quinto a autora, traz  os conceitos  das três primeiras analistas. Dos quais vejamos a seguir:
            Hermine von Hug-Hellmuth, considerada a pioneira da psicanálise com crianças, Freud  tinha grande respeito pelo seu trabalho. Utilizava jogos e desenho afirmando que com esse material as crianças elaboravam as situações difíceis e traumáticas. Em seu método, a interpretação do material inconsciente combinava-se com a influência pedagógica direta. Desaprovava a idéia de analisar crianças muito pequenas aquelas  que ainda não haviam passado pelo complexo de Édipo, pois acreditava que nesses casos a análise, em razão de seu poder de mobilizar o recalque e ao fortalecer as tendências impulsivas da criança, poderia prejudicá-la. Também afirmava que o analista deveria contentar-se em obter êxitos apenas parciais e de contar também com recaídas.
             Anna Freud, filha de Freud, lutou para ser reconhecida no seio de uma família que só esperava que os homens fossem talentosos. Entrou para o círculo de discípulos do pai, e foi na psicanálise com crianças que tornou-se reconhecida pelo seu trabalho. Em 1927 publicou sua obra principal, O tratamento psicanalítico das crianças. Anna Freud recebeu influências de Hermine von Hug-Hellmuth e, nesse livro, expõe os princípios da análise infantil. Anna Freud  como sua mestra, recomendava ao analista de crianças desempenhar um papel ativamente pedagógico. Estudou o comportamento das crianças em jardins-de-infância. Observou que tipos de brinquedos eram mais utilizados nas diferentes etapas do desenvolvimento, e, aplicando conceitos psicanalíticos a essas observações, forneceu uma orientação prática às professoras. Quanto ao tratamento psicanalítico, levantou questões diferenciando a análise com crianças de adultos, acreditava haver uma impossibilidade de se estabelecer uma relação puramente analítica com uma criança em função de sua imaturidade e dependência do meio ambiente. A criança não tem consciência de sua doença, nem acha que tem um “problema” para resolver. Nesse sentido falta a criança o elemento fundamental para a entrada de um paciente a analise, que é o seu mal estar e o reconhecimento do sintoma e necessidade de tratamento. Associava medidas pedagógicas aos meios analíticos, numa tentativa de conquistar a confiança da criança, facilitando seu engajamento no processo psicanalítico. Explicava em que consistia a análise e tentava convencê-la, a partir de um lugar de saber, de autoridade, de compreensão e de aliada da criança. Defendia que  a criança não consegue associar livremente como o adulto; não estabelece uma neurose de transferência em função de sua ligação com os pais da realidade; e, se não houver uma colaboração dos pais com o analista, melhor será afastá-la dos pais temporariamente e colocá-la numa instituição onde possa ser analisada. O tratamento psicanalítico visa a suspensão do recalque ela acredita que a análise com crianças não se dá da mesma maneira, pois se as tendências pulsionais forem liberadas do recalque, a criança irá buscar sua satisfação imediata. Anna propõe uma análise pedagógica, porém  esta não pode basear-se nos processos conscientes do eu que, conforme Freud já havia demonstrado, é a fonte das resistências. Ao contrário, o processo analítico tem que se apoiar no inconsciente, nas forças psíquicas recalcadas. Ao longo dos anos, a experiência clínica fez com que Anna Freud modificasse sua técnica  principalmente no que se refere à fase introdutória à análise e quanto à idade das crianças para o início do tratamento, que foi reduzida do período de latência para dois anos.
            Melanie Klein fundou a técnica da análise pela atividade lúdica com crianças. Brincar, uma atividade natural das crianças, foi considerado por ela a expressão simbólica da fantasia inconsciente. Ela afirmou que pelas brincadeiras a criança traduz de modo simbólico suas fantasias, seus desejos e suas experiências vividas. O elemento organizador essencial do pensamento de Melanie Klein é a prevalência da fantasia e dos “objetos internos” sobre as experiências desenvolvidas no contato com a realidade externa. Para ela o brincar era capaz de substituir as associações livres, portanto afirmando ser possível analisar crianças. Iniciou seu trabalho clínico com crianças partindo do pressuposto de que a teoria psicanalítica poderia ser aplicada a crianças, fazendo apenas as modificações que não alterassem a essência da teoria e do processo psicanalítico. A análise com crianças permitiu não somente confirmar as deduções freudianas sobre a infância derivadas da análise com adultos, como também fez novas descobertas. Klein revela que a vida infantil,  surge inteiramente sob o signo da agressividade primária (sadismo) à qual Freud deu o nome de pulsão de morte em constante luta, desde a origem, com a pulsão de vida. Para ela, aos 3 anos de idade a parte mais importante do desenvolvimento psíquico já está desenvolvida.
            O sexto capítulo, trata das Grandes controvérsias, no período após a destruição da sociedade psicanalítica européia pelo nazismo. Nesse período, os annafreudianos,  que pretendiam ser os porta-vozes das idéias do fundador da psicanálise um freudismo clássico, centrado na primazia do patriarcado, no complexo de Édipo, nas defesas e na clivagem do eu, na neurose e numa prática da psicanálise de crianças ligada à pedagogia, opuseram-se aos kleinianos, estes defendiam uma clínica baseada na relação de objeto, centrada nas psicoses e nos distúrbios narcísicos, nos fenômenos de regressão, nas relações arcaicas e inconscientes com a mãe e na exploração do estádio pré-edipiano. Essas discussões deixaram muitos ressentimentos, ocasionando mudanças estruturais no seio da Sociedade Britânica de Psicanálise,  que acabou dividindo-se em três grupos: os annafreudianos, os kleinianos e os independentes ou grupo do meio. Nesse grupo intermediário destacou-se um outro psicanalista que estava se dedicando ao trabalho com crianças: Donald Woods Winnicott.
 Donald Woods Winnicott, tornou-se uma pessoa conhecida e seu nome adquiriu um grande prestígio. Proferiu conferências dirigidas aos pais, professores, médicos e a todos que precisavam compreender as dificuldades das crianças ou dos adultos à sua volta. Escreveu numerosos artigos dirigidos ao grande público, nos quais, além de transmitir sua experiência em pediatria, encarregava-se de difundir conhecimentos psicanalíticos. Foi contrário a Melanie Klein, enfatizando os fenômenos de estruturação interna da subjetividade, ressalta a dependência do sujeito em relação ao ambiente. No que se refere à psicose, defende a tese de que é o fracasso da ligação materna que será a causa desse distúrbio. Ele descreve  o  desenvolvimento psíquico do bebê, Winnicott parte de sua total dependência em relação ao meio ambiente para explicar como, gradualmente, ele consegue se desvincular da dependência desse ambiente, ou seja, da mãe ou de seu substituto. Estabelece os estágios da criança, ressaltando que  estas atividades transicionais só se tornarão possíveis se houver uma maternagem suficientemente boa. A mãe identifica-se com o bebê e adapta-se às suas necessidades, permitindo que ele possa experimentar uma sensação de continuidade da vida e se desenvolver física e psiquicamente de acordo com suas tendências inatas. Segundo seus  estudos os objetos e fenômenos transicionais são constituídos quando há uma ameaça de ruptura na continuidade dos cuidados maternos. Nesse momento, o objeto transicional permite à criança suportar a separação, restabelecendo a continuidade ameaçada de ruptura. Ao contrário da maioria dos psicanalistas ingleses, Winnicott tinha conhecimento dos desenvolvimentos psicanalíticos postulados por Lacan e mantinha com ele uma relação epistolar. Quanto ao atendimento psicanalítico com crianças, Winnicott não se preocupava com a demanda de análise, estabelecimento de um diagnóstico, nem mesmo com a interpretação. Ele buscava estabelecer uma comunicação com a criança, um encontro “espontâneo”. Winnicott, assim como Anna Freud e Melanie Klein, estabelece, na direção do tratamento, uma relação dual, imaginária, onde a análise supõe um encontro e algo a oferecer.
            No capítulo sobre a contribuição de Jaques Lacan, a autora, traz a tona, a releitura de Freud, proposta por Lacan, com a pretensão de resgatar a cientificidade da psicanálise, resgatar de maneira nova a questão do sujeito do inconsciente, recorrendo a recursos da lingüística estrutural de Saussure, e outros saberes como a lógica  e a topologia. Repensa também os  pressupostos saussurianos, e inverte a ordem formulada por Saussure e privilegia o significante, além de afirmar que não há relação entre o significante e o significado, que “são ordens distintas e separadas inicialmente por uma barreira resistente à significação”. Lacan afirma que “a linguagem determinará que o sujeito se torne seu servo”, ou seja desde antes de nascer a criança está mergulhada num banho de linguagem, há um discurso que a precede. Também que o inconsciente está estruturado como a linguagem, preocupado em apontar os desvios feitos na psicanálise da época, em relação à obra de Freud. Em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, afirma que Anna Freud e Melanie Klein desconsideraram a dimensão simbólica do sujeito e reduziram a direção do tratamento a uma relação dual, imaginária. Lacan vai insistir na função do simbólico no tratamento, visando destruir a ilusão de reciprocidade. Segundo ele, “cabe formular uma ética que integre as conquistas freudianas sobre o desejo: para colocar em seu vértice a questão do desejo do analista”. A divisão do freudismo foi acentuada pela presença de Françoise Dolto, pioneira da psicanálise de crianças na França. Lacan não analisou crianças. O que aproximou Françoise Dolto de Lacan foi, acima de tudo, a primazia que ambos atribuíam à linguagem e à função simbólica, diferenciando-se nesse aspecto da corrente genética em psicanálise, centrada numa sucessão de relações objetais e estágios. O sujeito é assujeitado à fala, o sujeito do inconsciente, nasce no campo do Outro. Se ele não nasce pronto, deve ser construído, e sua constituição acontece na relação com a fala que passa pela linguagem. E essa fala não significa aprender a articular palavras e formar frases para comunicar-se com os demais, mas significa ir além da necessidade e ter acesso ao desejo. Por volta dos anos 1950 e 1960, a partir das contribuições de Melanie Klein, Winnicott e outros, imperou no meio psicanalítico pós-freudiano uma inflação das  teorizações a respeito da função materna, considerada por grande parte dos psicanalistas responsável pelas dificuldades e sucessos com os quais os sujeitos esbarravam em suas vidas. A doença mental tinha origem nas perturbações relacionadas aos cuidados que a mãe dispensou a criança, posteriormente a preocupação passou a ser a restauração da autoridade paterna, considerada enfraquecida no seio da família. A partir de Lacan, entendemos que  a relação simbiótica entre  a mãe e a criança não se sustenta, há que se introduzir um terceiro elemento que é o falo, também ele recupera a importância do pai na psicanálise. Segundo a  autora, Lacan aborda a criança sob o ângulo da verdade, estabelecendo uma diferença entre a sua identificação ao sintoma e ao objeto. Vejamos:

o sintoma da criança acha-se em condição de responder ao que existe de sintomático na estrutura familiar. O sintoma — esse é o dado fundamental da experiência analítica — define-se, nesse contexto, como representante da verdade. O sintoma pode representar a verdade do casal familiar. Esse é o caso mais complexo, mas também o mais acessível a nossas intervenções. A articulação se reduz muito quando o sintoma que vem a prevalecer decorre da subjetividade da mãe. Aqui, é diretamente como correlata de uma fantasia que a criança é implicada. ( LACAN apud COSTA 2010).
           
            Ele aborda o sintoma da criança como uma resposta ao que há de sintomático na estrutura familiar. Para Lacan, dependerá da relação da mãe com o pai a garantia de que o objeto criança, divida no sujeito feminino, a mãe e a mulher.
            No nono capítulo, a autora aborda os conceitos da colaboradora e amiga de Lacan, Françoise Dolto, a qual foi uma psicanalista inovadora em matéria de psicanálise infantil, sua abordagem centrou-se na escuta do inconsciente e nos traumas genealógicos. Tinha como proposta inserir a criança na estrutura desejante da família, pois ao nascer ela está apenas inserida na estrutura do desejo do Outro. Sendo a criança fruto de três desejos, o do pai, o da mãe e o do próprio sujeito, a partir dessa posição, ela redefine o sintoma da criança, como sendo sintoma da estrutura familiar. Segundo Dolto, a fala é o organizador que permite o cruzamento do esquema corporal (pré-consciente e consciente) com a imagem do corpo (inconsciente).  Em sua teorização ela aponta a imporância de falar a verdade à criança. Ela enfatizava a necessidade de contar à criança toda a verdade sobre a sua história, mesmo que fosse doloroso para ela ou para os adultos e que isto deveria ser feito em uma linguagem acessível à sua compreensão. Segundo ela, a mentira está em desequilíbrio com o pressentido e o inconsciente do sujeito. Também enfatiza a vinculação existente entre a neurose dos pais e a dos filhos, um sofrimento não verbalizado de duas linhagens pode aparecer sob a forma de um sintoma. Quanto a clínica com crianças, Dolto dava grande atenção ao ambiente familiar. Afirma que a uma das diferenças entre a psicanálise de adultos e  a de crianças muito pequenas, reside no fato de que essas ainda não perderam o Édipo, o trabalho aí consiste em compreender a relação mãe-filho, pai-filho e o que ocorre com a desenvoltura motora, a linguagem verbal, a identidade sexuada da criança, sua autonomia e seu desejo. Não separava crianças com menos de 5 anos de seus pais, preferindo fazer um trabalho com eles antes de começar o tratamento com a criança. Diferentemente de Melanie Klein, que popularizou a técnica psicanalítica do brincar, Françoise Dolto utilizou principalmente a fala, o desenho e a modelagem. Um ponto importante na análise com crianças, foi quanto ao pagamento das sessões, ela introduziu um pagamento simbólico ( pedrinhas, selos, pedaços de papel colorido), colocando a criança numa posição de sujeito desejante e responsável por suas dificuldades. Tal como Lacan, coube a ela resgatar a palavra da criança no discurso analítico, a verdade do sujeito em sua dimensão desejante.

3- Análise crítica da obra:

O principal mérito da obra é apresentar os primeiros teóricos da prática clínica com crianças, através da apresentação de seus pensamentos na época.
A escrita é em estilo claro e objetivo, traz exemplos de casos conhecidos na história da psicanálise, aborda as teorias,  modelos e sua evolução.
Dirigida a estudantes, pesquisadores e profissionais da área da psicologia e afins, o investimento que se faz na leitura do livro resulta em benefícios e aprendizado para o leitor.
Na presente obra, Costa, não tenta privilegiar um ou outro pensamento como melhor ou mais adequado, mas apresenta as teorias e sua evolução.
A autora separa o estudo em capítulos, iniciando com a conceituação de infância e sua contextualização no tempo. Após  discorre sobre os primórdios da psicanálise com crianças, a própria origem da psicanálise com Freud e a observação das mulheres histéricas,  o primeiro caso de psicanálise com crianças que  foi do pequeno Hans, analisado por Freud.
Na sequência, traz  a biografia e o que pensavam os primeiros teóricos da prática clínica com crianças, dividido em capítulos. Um ponto que chama a atenção, é que essa análise com crianças,  foi um papel que coube inicialmente às mulheres, por estarem  mais próximas, tanto nos lares quanto na prática pedagógica.
O livro além de mostrar as primeiras práticas com crianças, traz as diferenças entre as análises e o pensamento que cada teórico defendeu. Apresenta uma Anna Freud, que ocupa o lugar de companheira do pai, enfermeira, psicanalista e por fim guardiã da obra do pai.    
Ficam claras na leitura, as divergências no campo da psicanálise com crianças, que se dão especialmente, entre os pensamentos de Anna Freud e Melanie Klein, para a primeira que segue do mesmo modo que Sigmund Freud e diferencia a análise de crianças e análise de adultos, seguindo o padrão de Freud em relação à demanda, transferência e interpretação que o seu pai usava. Já Klein, se apoia no conteúdo que a criança fornece e não no discurso dos pais, visto que os pais tentam controlar as pulsões e fantasias dos filhos, acredita que a criança tem uma fantasia inconsciente da doença.
 O livro traz ainda as contribuições de Jaques Lacan, que não analisou crianças, porém as idéias de Francoise Dolto, encontram as suas em diversos pontos, especialmente a primazia que ambos atribuíam a linguagem e a função simbólica, Dolto atendia bebês e com a mãe realizava a prática clínica.
Outro ponto interessante é sobre as contribuições de Winnicott, com a formulação do conceito de “mãe suficientemente boa”.
Por fim, encerra com um quadro comparativo entre os teóricos Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott e Françoise Dolto, deixando claras as semelhanças e divergências de cada um.

Elisandra Lidiane Minozzo, acadêmica primeiro semestre do Curso de Psicologia do Centro Universitário Metodista – IPA, out 2017.

REFERÊNCIAS:

COSTA, Teresinha. Psicanálise com crianças. 3ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. 88 p.


terça-feira, 1 de maio de 2018

A QUINTA VIDA DE ELIS

Num primeiro momento, pensei em excluir o blog, já que tanto tempo se passou, sem que eu escrevesse. E como tenho mudado tanto, o que é perfeitamente natural e esperado da espécie humana. Algumas das postagens já não me representam, não consigo me ver nelas, no entanto, lembro exatamente do contexto em que estava, e compreendo a profusão de sentimentos que acompanhou cada uma. Excluí-las, seria de alguma forma, negar quem fui. Meus erros de português, meus erros de analise de mundo, ou não seriam erros? Seria apenas o melhor de mim àquele tempo. Então, a decisão foi, continuar com ele, grata pela  pessoa que busco me tornar a cada dia. Grata pela pessoa que fui em cada lugar que estive, e grata por todos que estão comigo, desde sempre.
Assim, hoje inicia "A quinta vida de Elis", essa foi a forma que escolhi definir, minhas muitas vidas nesta vida, cada vez que me fragmento, me sinto mais inteira e fiel àquela que sou. 
Minha 5ª vida, veio ao trigésimo nono ano de vida física, ela chegou com a decisão de cursar psicologia, e muitas ações que me ocuparam nesse último ano. 
A partir daqui, o blog trará em suas postagens, aquela que me tornei, aquela que busco ser e aquela que consigo ser. Bem-vindo de volta às "Coisas de Elis" na 5ª vida de Elis. 

DEUS SEGUNDO SPINOZA

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, ...